terça-feira, 18 de abril de 2017

Imunoterapia foi eleita este ano o maior avanço contra o câncer


Remédios estimulam defesa do organismo a detectar a doença, mas ainda são caros

 Sistema imunológico atacando células cancerosas – Divulgação/Ella Maru Studio

RIO — Que a imunoterapia é uma revolução, não há dúvida. A técnica estimula o organismo do paciente a identificar as células cancerosas e atacá-las, por meio de drogas que modificam a resposta imunológica. Isto é, em vez de mirar o câncer, os remédios imunoterápicos dão um “empurrão” nas nossas defesas para que elas mesmas detectem a doença. O que anima ainda mais a comunidade médica é a descoberta, de cinco anos para cá, que muitos tipos de câncer podem ser tratados usando essa lógica. Além disso, essa terapia representa esperança para pacientes que, antes dela, não encontravam opções de tratamento — seja porque a doença está em estágio avançado demais, seja porque já se espalhou por outros órgãos.

Apenas no ano passado, foram descobertas seis novas aplicações da imunoterapia: para câncer de cabeça e pescoço, linfoma de Hodgkin, pulmão, bexiga e câncer de mama triplo negativo — até então considerada uma doença com alto risco de reincidir nos três primeiros anos após o diagnóstico inicial. Para os tumores malignos de bexiga, esse é o primeiro tratamento eficaz em três décadas.

Não à toa, essa classe de remédios foi eleita, no início de 2017, o maior avanço do ano contra o câncer pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês).

— Considero a imunoterapia como o grande progresso da oncologia não só do último ano, mas dos últimos cinco anos. Ela gera uma revolução na forma como entendemos o tratamento do câncer — ressalta Carlos Gil Ferreira, diretor institucional do Grupo Oncologia D’Or. — Mas é bom que fique claro que a imunoterapia que conhecemos hoje é só um primeiro estágio. Ela será seguida por uma geração ainda mais potente de medicamentos.

Segundo Daniel Tabak, diretor médico do Centro de Tratamento Oncológico (Centron), estudos mostram que 60% dos pacientes com linfoma de Hodgkin, por exemplo, conseguiram resposta com tratamento imunoterápico. E é sabido que um terço de todos os pacientes com câncer de pulmão alcança a regressão da doença com imunoterapia.

— Pessoas que já passaram por transplantes e outros tratamentos que falharam têm, finalmente, uma chance. Isso é extraordinário.


EFEITOS COLATERAIS GRAVES

De acordo com Tabak, o próximo passo é entender por que, enquanto para uns pacientes a imunoterapia é eficaz, para outros com a mesma doença ela não provoca qualquer resposta.

— Nosso desafio é definir quais são os biomarcadores que definem quais pacientes podem se beneficiar dessa terapia — diz ele.

E essa seleção tem que ser criteriosa por dois motivos principais: a possibilidade de efeitos colaterais graves e o alto custo. Diferentemente da quimioterapia, o tratamento imunoterápico não provoca efeitos clássicos como queda de cabelo e vômitos, mas erupções na pele e até inflamação no fígado e doenças autoimunes, nos casos mais graves. E, conforme explica Tabak, o custo mensal de um tratamento assim gira em torno de R$ 40 mil, um valor alto demais para a maioria da população brasileira.

O fator econômico é uma das grandes barreiras para que essa terapia passe a ser disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS). As drogas imunoterápicas existentes hoje no Brasil estão exclusivamente na rede privada.

A lógica para o funcionamento desses remédios envolve, curiosamente, um bloqueio de parte essencial do nosso sistema imunológico. O corpo humano tem moléculas que agem como “freios”, assegurando que as células de defesa sejam usadas apenas quando há inimigos para combater. Só que essas moléculas não conseguem perceber as células de câncer e as deixam evoluir. Ao bloquear o sistema de “freios”, o corpo é capaz de reconhecer e atacar o tumor.

Fonte: Cancer Org 







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