sexta-feira, 9 de março de 2018

A vida após o câncer: Vane é sinônimo de superação

Foto: Arquivo Pessoal

Para quem vê de longe, a batalha contra o câncer parece assustadora – e é. O que a maioria das pessoas não sabe é que, mesmo depois que alguém vence a doença, os desafios continuam, por vários motivos, mas mesmo assim, tudo na vida depende de onde direcionamos o olhar e esse é o aprendizado trazido neste sábado (17) na série de reportagens do Webterra que retrata Mulheres Sertanejas, Mulheres Urbanas, Mulheres Empresárias e Mulheres Fortes. 
A personagem do dia é a Evanilde Maria de Souza, de 58 anos, aposentada, professora, motorista de uber, mãe e ainda, vencedora de um câncer de mama.
O Instituto Nacional do Câncer (Inca), estimou que entre 2016 e 2017, cerca de 600 mil novos casos de câncer seriam diagnosticados no país. Por trás desses números estão vidas que tem os rumos alterados.
Das estatísticas surgiram, surgem e surgirão histórias de luta, superação, paciência e coragem na busca pela cura. 
Em 2013, quem recebia a má notícia era Evanilde Maria, servidora do Estado e mãe de dois filhos: uma mulher, que hoje tem 24 anos e um homem, de 28, todos os três, tiveram as vidas alteradas a partir de um diagnóstico.
“Desde quando completei 40 anos vou todo ano ao mastologista fazer exames e nunca detectou nada, mas em 2013, quando completei 53 anos, eu comecei a apalpar algo que me dava uma ideia de uma glândula e aquilo me incomodou. Eu fui ao mastologista de cara perguntando se era câncer e ele me disse que apenas os exames iriam mostrar”, recorda.
Com um toque, Evanilde, notou a diferença e conseguiu evitar o pior, assim como o médico que a atendeu, que percebeu que algo estava errado com o exame.
“O médico pediu os exames e fizemos a pulsão, quando fizemos a biopsia deu negativo, mas ele disse que não concordava com a biopsia e pediu uma segunda guiada por ultrassom e a segunda biopsia identificou o câncer no terceiro grau, aí o médico colocou para mim a necessidade de retirar o nódulo ou a mama e é retirando a mama que o risco de retorno era mais difícil, já retirando só o nódulo poderia voltar e aí eu optei por retirar a mama”, diz.
Família
O diagnóstico é o começo de uma árdua batalha e para essa batalha é importante ter pessoas ao lado que te apoiem e incentivem a lutar. Neste caso, os maiores incentivadores da Evanilde são os filhos e familiares.
“A primeira pessoa que eu conversei foi o meu sobrinho, o Stradeiro, que é muito próximo. Ele me disse que infelizmente não quer que aconteça com ninguém, mas já que aconteceu é tratar e se colocou à disposição. Em seguida,  eu dirigi, fui para casa e chamei minha filha. Eu disse para ela que não entendia nada da doença, mas sabia que a biopsia deu positivo e ainda iria levar ao médico. Eu disse que precisava da ajuda deles, mas a ajuda era que não queria ver ninguém chorando, ninguém abatido. Quando alguém adoece, toda família adoece e eu falei que nós não iriamos adoecer e ficaríamos firmes, erguendo a cabeça e cuidando disso como Deus quiser. Como disse para eles, se olho eles chorando vou pensar que estou muito mal e eu estou bem e tem cura”, afirma.
Após a conversa com a filha, Evanilde, ficou em casa até o fim da tarde, quando chegou o momento de ir ao mastologista mostrar os exames. “Quando fui ele me disse que tinha dado positivo e que agora era uma corrida contra o tempo, eu precisava fazer uma bateria de exames e iniciar o tratamento”, diz.
Tratamento: A escolha da retirada da mama e as consequências
Entre os desafios a vencer na batalha contra o câncer, está um item primordial: o tratamento, isso independente se o paciente é do sexo masculino ou feminino e qual o tipo de câncer. É algo que precisa ser feito o mais rápido possível, uma verdadeira batalha contra o tempo e no caso do câncer de mama, a mulher precisa ainda decidir se retira o seio ou não, uma decisão difícil, mas que Evanilde não demorou a tomar.
“O meu diagnóstico foi em maio e em junho já fiz a cirurgia, eu não demorei decidir de jeito nenhum, até porque eu sabia que é uma corrida contra o tempo e se eu fosse pensar o que fazer eu estaria perdendo tempo e eu pensei que eu sou muito mais valiosa do que um peito. Um peito? fazemos outro, não fica igual, mas fazemos e vou usar sutiã do mesmo jeito e aí retirei”, pontua.
Um mês após o diagnóstico, Evanilde já estava fazendo a cirurgia de retirada de mama e ela optou por no mesmo momento, colocar uma prótese de silicone para a reconstrução da mama, mas infelizmente, houve um novo empecilho.
“Eu fiz a retirada e já coloquei a prótese, mas deu rejeição. Após uns dez dias, quinze dias, que tinha feito a cirurgia, os sinais de rejeição vieram. Eu tive o diagnóstico em maio, fiz a cirurgia em junho e em julho eu precisei retirar a prótese, porque iria começar a quimioterapia em agosto e para fazer a químio, não pode ter nenhuma infecção”, diz.
Evanilde destaca que apesar de tudo ela não se incomodou com o câncer e a mama. “Nada nunca me incomodou, eu nem tinha tempo para pensar, precisava ser rápida. Neste ano completam-se cinco anos que iniciei o tratamento e no mês que vem vou fazer uma cirurgia de correção, o meu tratamento todo foi mais de um ano, porque além da quimioterapia eu tive que tomar outro medicamento complementar”.
Força na peruca
O tratamento quimioterápico, realizado no combate ao câncer, tem diversas consequências, entre elas, a perda de todos os pelos do corpo: cílios, sobrancelhas e cabelos. Na maioria das vezes, o cabelo é a parte mais importante da aparência para uma mulher, é ele que compõe o estilo e revelam a identidade e ninguém está preparado para perder os fios. 
Evanilde não quis raspar o cabelo, em meio ao problema, soube direcionar o olhar.
“Eu perdi todos os pelos, a única coisa que não aceitei foi raspar a cabeça, porque já vai cair, não precisa você se torturar antes. Eu preferi esperar naturalmente. Quando eu iria fazer a primeira sessão de quimio, eu já comprei as perucas de náilon, porque a natural é cara. Quando vi uma meio loira, uma preta, uma castanho e uma com mecha, eu pensei que tinha que aproveitar e tirar o positivo do negativo, as coisas ruins também trazem coisas boas e eu resolvi ver como eu ficaria com o cabelo diferente, comprei minhas peruquinhas e uma semana usava uma e outra semana usava outra” diz sorrindo.
Quando se fala em câncer em mulheres, logo vem na cabeça, as doações de cabelo, mas o que os pacientes mais precisam são de doações de tempo, de pessoas que caminhem junto com eles, que os apoiem e incentivem. Neste caso, a relação entre mãe e filha foi primordial e a Débora, filha de Evanilde, a acompanhou e esteve em um momento complicado, a queda dos fios da mãe, a certeza é que após isso a filha, que doou tempo, gestos e acima de tudo amor, amadureceu ainda mais.
“Quando completou 20 dias que eu tinha tomado a primeira químio e já estava indo tomar outra os meus fios caíram, lembro que estava dirigindo, quando peguei no cabelo e saiu muito, então fui para casa, peguei e fui tirando e coloquei na mão da minha menina, os olhos dela encheram de lágrimas e eu falei para ela deixar de besteira porque nasce de novo. Aí fui no banheiro, forrei uma toalha na pia e fui tirando, os cabelos saíram tudo, tudo, mas eu já tinha levado a peruca para o banheiro”, relembra.
Uma das dúvidas das pessoas é sobre quando os cabelos voltam e Evanilde conta com bom humor toda a história.
“Na quimioterapia são quatro doses mensais mais fortes e cada sessão o cabelo não nasce mais, se derrubou na primeira sessão, acabou, ele só começa a nascer quando você termina as sessões mais fortes. Nos cinco, seis meses depois é que começa a nascer, eu mesmo usei a peruca por oito meses e, em fevereiro de 2014, começou a nascer, mas só aqueles pouquinhos. A única pessoa que me viu sem peruca e sem sutiã foi o médico e mais ninguém, nunca deixei ninguém me ver desse jeito porque eu acho que é muita tortura”, afirma.
Ocupar a mente
Um recurso que todos dizem que em situações complicadas deve ser usado é ocupar a mente. Tudo fica pior se a pessoa se isola e em mais um ponto Evanilde surpreende, mesmo durante o tratamento de quimioterapia ela não parou de trabalhar e hoje, mesmo tendo aposentado, ela continua se dividindo entre os serviços, mas não esconde que a grande paixão é trabalhar como motorista de Uber.
“Parar de trabalhar não passa por minha cabeça, eu nunca parei de trabalhar, nem mesmo durante a quimioterapia. Hoje sou aposentada do Estado, mas tenho uma prestação de serviço em um município, que são aulas de bordados e artesanatos na Secretaria Municipal de Assistência Social de Itacambira, com uma amiga minha, tenho uma mini lojinha de variedades e claro que não posso esquecer, sou motorista Uber”, diz aos risos.
Sobre como concilia as atividades e o motivo de mesmo aposentada escolher trabalhar ela explica o seguinte: “Quando você se aposenta passa a ter uma vida muito sedentária, parada, sozinha, isolada e eu sou muito ativa, não aguento ficar parada, nisso a Uber veio para Montes Claros e eu logo pensei em testar, fui passei saber como era, tinha que colocar atividade remunerada na carteira, eu coloquei e autorizaram, eu adoro e amo fazer Uber, inclusive nesse sábado e domingo eu vou fazer, sou Uber desde abril de 2017 e no outro município trabalho dois dias, na lojinha tenho uma moça que cuida para mim e no tempo disponível eu faço o Uber e tem a questão do tratamento que preciso ir à oncologista, agora de seis em seis meses”, pontua.
Uma história construída com anjos
Em tudo na vida não é possível andar só e durante a caminhada é preciso de apoio e Evanilde encontrou pessoas que a ajudaram nesta batalha contra o câncer e que foram primordiais para que hoje ela esteja aqui contando a história.
“No meu caminho muitas pessoas me ajudaram, eu preciso agradecer primeiramente a Deus, depois aos médicos, Dra. Priscila, Dr. Wilton e Dr. Paulo, todos são bençãos de Deus, eu não teria conseguido chegar aqui se não fosse eles, a cirurgia plástica mesmo eu fiz pelo SUS, é tudo muito caro e não teria condições de fazer tratamentos estéticos assim, todos eles foram fundamentais, uns anjos”, ressalta.
Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, pessoas que passaram por um câncer e venceram a doença são chamadas de “sobreviventes”, porque, na maioria das vezes, carregarem tanto sequelas físicas quanto psicológicas, mas Evanilde, em todo o momento sorri ao falar do que passou e passa e brinca com a situação. Além disso, o desejo dela é levar as experiências vividas para as pessoas.
“Eu fiz uma palestra na época que queria ter tido a oportunidade de ter apresentado para alguém, tenho as fotografias do meu período, eu montei a palestra durante o tratamento e ainda tenho muita vontade de falar sobre o assunto. Acredito que seja uma forma das pessoas saberem que você tem que se prevenir contra o câncer, procurando médico e fazendo os exames regularmente. A gente pensa que só acontece com os outros e não com a gente, mas de repente você é vítima.  Você tem que conhecer sobre a doença, sobre as sequelas, que ela te traz para você se precaver, não é todo mundo que está com o psicológico preparado, isso eu garanto, mulher é vaidosa, perder o peito é forte. O câncer diagnosticado mais cedo ele tem cura, diagnosticado mais tarde, infelizmente, só Deus e por isso eu tenho muita vontade de falar sobre isso”, diz.
A espera pela cura
Na vida todos já desejaram ter uma varinha de condão capaz de solucionar qualquer transtorno com apenas dois ou três “plim,plim,plim”, mas fora dos contos de fadas a história é bem diferente, o que normalmente o mundo fictício tem em comum com o real é que as heroínas costumam ter uma trajetória cheia de obstáculos para terem um final feliz e se tornarem mais felizes do que são, enxergando a vida de outro modo, assim foi com a Evanilde.
“Antes do câncer a gente se ama menos porque pensamos que estamos bem, que nada vai acontecer, não nos valorizamos, não importamos com alimentação, embora, fazemos isso de maneira inconsciente. Após o câncer, a gente se ama mais, você se valoriza mais, se aproxima mais de Deus. O câncer desde curado você entende que você e a vida tem mais valor. Eu ainda estou no período de aguardando a cura, porque ela acontece após cinco anos e eu vou completar cinco anos em agosto deste ano. Se a doença não voltar é que dar-se a entender que tem a cura, mas eu tenho fé que estou curada”, afirma.
A vida, naturalmente, jamais será a mesma para quem passa por uma experiência tão radical. É preciso lidar com transformações que vão do modo de viver a cirurgias plásticas e reabilitação. Passar por todo o esgotamento envolvido em um tratamento contra o câncer, conviver com o incômodo dos efeitos colaterais, que nem sempre desaparecem junto com a doença, é uma carga complicada, mas o exemplo de Evanilde é que em tudo na vida, o nosso olhar deve ser direcionado para algo positivo, o desejo dela é contar a história e mudar os pensamentos das pessoas. 

Fonte: WT

As informações e sugestões contidas neste blog são meramente informativas e não devem substituir consultas com médicos especialistas.
É muito importante (sempre) procurar mais informações sobre os assuntos

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