segunda-feira, 21 de maio de 2018

Eles venceram a depressão: 4 histórias de quem viveu e superou a tristeza profunda


MIKEDOTTA/SHUTTERSTOCK

Dor sem localização acompanhada de uma mistura de sensações que envolvem tristeza, irritação, culpa constante, falta de prazer e desesperança de um futuro melhor. Essa descrição é insuficiente para definir a depressão, doença que atinge mais de 300 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, e já é considerada o "Mal do Século".
Para entender o que é depressão, só mesmo passando por uma. Felizmente, a condição tem cura por meio do tratamento adequado, que devolve não apenas a alegria ao paciente, mas também a vontade de viver e a capacidade de sonhar.





A seguir, entenda mais a partir de depoimentos de pessoas que venceram a depressão:

Alice

A primeira crise de depressão da jornalista Alice Albuquerque* ocorreu em 2010, em meio a um momento profissional conturbado. "Eu sabia que estava muito estressada e as pessoas ao meu redor percebiam, mas não identifiquei em momento algum que aquilo poderia ser depressão. Eu não me sentia triste, mas extremamente irritada", conta.
A doença só veio à tona em uma consulta com uma ginecologista com quem Alice tinha muita afinidade. Após uma conversa bem humorada sobre assuntos variados, a paciente contou que se sentia estranha e logo começou a chorar.
Surpresa pela mudança repentina de humor, a ginecologista prescreveu antidepressivos e recomendou que Alice procurasse um psiquiatra e um psicólogo. Apesar de resistir quanto aos especialistas indicados, a jovem tomou o medicamento por seis meses e assim conseguiu vencer a crise de depressão.

Retorno da depressão

Em 2014, Alice estava no melhor momento de sua carreira quando a depressão voltou a dar as caras. Além da irritação exacerbada, que também se manifestou no primeiro episódio, a jornalista de então 36 anos também teve sintomas físicos, como uma dor muito forte no esterno, um dos ossos centrais do tórax.





"Em nenhum momento eu quis ficar só de cama. Pelo contrário, continuei trabalhando. Mas, às vezes, desejava que alguma coisa ruim acontecesse comigo para que eu não tivesse de trabalhar ou passear, como um acidente", desabafa.
Em um dia comum, e até mesmo tranquilo, no trabalho, Alice teve uma crise de pânico e logo relacionou todos os sinais com o retorno da depressão.
Não é possível afirmar se a falta de atendimento psiquiátrico e psicológico causou o segundo episódio depressivo, mas de acordo com o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, quem sofre uma crise e não a trata adequadamente tem 50% de chance de ter uma segunda.
"Eu fiquei com muita raiva de mim mesma por não conseguir impedir a doença. Sempre fui uma pessoa muito alegre e alto astral, não imaginava que pudesse ser diagnosticada com depressão", desabafa. Essa é justamente uma das características marcantes da doença: ela afeta a todos, independe de raça, personalidade, sexo, idade ou condições financeiras.
A jovem buscou o atendimento correto para a recidiva: o psiquiatra receitou antidepressivos e ansiolíticos e pediu uma licença do trabalho de 15 dias. Apesar de difícil, o recesso foi importante para que colocasse os pensamentos em ordem.

Compreendendo o transtorno

Na segunda crise, ela também recorreu à psicoterapia e aos tratamentos alternativos com massagens, acupuntura e constelação familiar - método psicoterápico que trabalha a energia inconsciente que influencia cada decisão tomada.
Durante a recuperação, teve de lidar com a falta de conhecimento dos familiares acerca da doença. "Me disseram muitas frases ruins, como 'Vai sair, vai ver gente!'. É a mesma coisa que falar para uma pessoa com taquicardia controlar o coração: impossível, já que a doença é causada por alterações nos níveis de neurotransmissores", lembra.
Infelizmente, ainda há muitos estigmas sobre a depressão. "Tem gente que acha que é um ato de fraqueza, falta de Deus ou frescura. Apesar de ter melhorado muito, a desinformação ainda é grande", ressalta a psicóloga junguiana Janete Esposito, especializada em Psicossomática e Psicologia Hospitalar.
O primeiro passo para ajudar alguém com depressão é buscar informações a respeito da condição, a fim de se preparar para prestar apoio
Hoje, sem crises há três anos, Alice aconselha quem enfrenta a doença: "Peço que acredite, confie, busque tratamento e não feche os olhos para tratamentos alternativos, pois tudo é válido para voltar a se sentir bem".

Felipe

ARQUIVO PESSOAL/FELIPE MORAES ANEAS

Felipe Moraes Aneas já enfrentou a doença duas vezes, ambas por desencadeantes traumáticos. "Na primeira, em 2010, havia terminado um relacionamento. Já o segundo 'nocaute' ocorreu em 2015, depois que meu avô e meu pai faleceram em um curto espaço de tempo, o que fez com que tudo perdesse o sentido", conta.
Apesar de ter cunho genético, as crises de depressão são despertadas por gatilhos, assim como ocorreu com Felipe. "Há inúmeros, como perda de entes queridos, término de namoro, demissão, estresse, chefes autoritários, excesso de expectativa dos pais, pressão nos estudo, etc", elenca a psicóloga Janete Esposito.
"Na segunda crise, que foi bem pior, perdi meus pilares pois tinha uma relação forte com meu pai e avô. Não conseguia trabalhar e nem me concentrar, então fazia as coisas no automático", conta o empresário, que já fazia psicoterapia na época.

"Estou curado da depressão, principalmente pela fé"

Foi quando um amigo de Felipe o aconselhou a ir a um psiquiatra, que receitou medicamentos que o ajudaram muito a controlar a ansiedade. Apesar disso, ele afirma que o que realmente o fez superar a depressão foi a fé.
"Estou curado da depressão, principalmente pela fé que encontrei na religião espírita. É nela que me apego nos momentos difíceis. Hoje, luto contra pensamentos negativos, tenho amor pela minha vida e muito orgulho da minha família. A vida é complicada, mas é bonita", ressalta.

Rafael

ADRIANHILLMAN / ISTOCK

Rafael Silva* sempre foi muito proativo e animado, mas em 2014 passou a ficar sem vontade de sair ou fazer atividades que gostava. "Só deitava no sofá e evitava qualquer tipo de evento ou passeio que me tirasse de casa", relata.
Apesar da reação de Rafael, a doença pode se desenrolar de diversas maneiras. "Existe o mito de que a pessoa com depressão passa o dia todo na cama, fica mal-humorada e sem comer. Porém, a doença pode vir de outras formas, como em conjunto com ansiedade, o que torna o indivíduo muito ligado e ativo", afirma a psicóloga Janete Esposito.
Quando o desânimo atingiu um patamar gritante, Rafael buscou ajuda de psiquiatra e psicólogo. Ele demorou até se adaptar aos medicamentos prescritos: somente após três trocas de dosagem viu os benefícios do tratamento que devolveu sua qualidade de vida.

"Ninguém precisa sofrer"

Contudo, foi a terapia que teve papel essencial para mudar sua vida: "Fiquei dois anos em tratamento e tomei decisões importantes para resolver problemas que eu havia guardado a sete chaves", desabafa.
Ainda que existam diversas abordagens psicoterapêuticas - como psicanálise, cognitivo comportamental e gestalt - a terapia ajuda a lidar com os pensamentos e os traumas passados, promovendo mudanças no presente.
Apesar de doloroso, o rapaz reconhece que o processo foi essencial para que retomasse o controle de sua vida. "Hoje, digo que ninguém precisa sofrer. Se existe a possibilidade de tratamento, busque-o, seja com psicólogo ou psiquiatra", recomenda.

Manuela

Manuela descobriu a depressão em meados de 2012, depois de meses acreditando que a razão de seu sofrimento era apenas tristeza. "Na época, alguns problemas familiares impulsionados pela loucura do dia a dia levaram toda minha energia e meu ânimo", disse.
Aos 27 anos, ela fazia terapia, mas tinha receio em procurar um psiquiatra, apesar de sua psicóloga e de sua mãe insistirem que seria bom.
Assim como ela, muitas pessoas têm preconceito quanto ao uso de medicamentos psiquiátricos, que são rodeados de questões que envolvem, como qualquer outro tipo de remédio, vício e efeitos colaterais. Todavia, os benefícios superam os contras e o acompanhamento adequado pode reduzir os incômodos.

"Hoje, os sentimentos bons ganham dos ruins"

Após muita insistência, Manuela concordou em buscar ajuda. "Fui ao médico e um senhorzinho vestido de branco e com cabelo e barba da mesma cor me explicou que tomar remédio não precisava ser ruim, mas que deixaria minha vida mais leve. E assim foi", conta a jornalista.
Logo, fez uso dos medicamentos psiquiátricos, mas alguns efeitos adversos foram difíceis de lidar. "Eu me irritava quando as drogas me faziam dormir demais ou quando sentia que elas amorteciam quem eu realmente era. Fui ao extremo de parar de tomá-los por conta própria e o resultado, claro, não foi bonito", desabafa, se referindo à abstinência repentina que gera efeitos indesejados.
Depois da interrupção, Manuela retornou ao tratamento e só parou de tomar os antidepressivos de vez na hora certa. "Hoje, os sentimentos bons ganham dos ruins, e eu sei lidar com esses também."

O que fica depois da depressão?

MANOP/SHUTTERSTOCK
A psicóloga Janete Esposito explica que a depressão é um momento em que, por meio da dor, acessamos frustrações, traumas e o próprio luto. "É uma oportunidade de ressignificar histórias não resolvidas e torná-las um aprendizado que permita o crescimento pessoal e que altere a forma de encarar a vida", esclarece.
Há três anos sem crises, Alice afirma que, além de ganhar empatia por pessoas com condições mentais, a depressão mudou sua maneira de pensar e agir: "Ficamos o tempo todo querendo provar que somos fortes, mas temos que assumir nossas limitações e desacelerar quando preciso".
Fonte: VIX

As informações e sugestões contidas neste blog são meramente informativas e não devem 
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